sexta-feira, 22 de abril de 2011

Angola


Recente reportagem numa revista chamou-me a atenção, e entusiasmada comecei a ler. Mas depressa caíram os papéis, a mente a vaguear por campos que evito geralmente, talvez com medo dos espinhos graúdos, das temíveis serralhas e da aspereza dos penedos da memória. E cheguei à conclusão de que afinal, embora não pense muito nisso, o facto é que ainda me lembro. Lembro-me do dia em que vi o primeiros dos muitos embondeiros, a árvore capaz de matar a sede a quem passa; as acácias de flores vermelhas de sangue que tão belas achei, e que mais tarde voltaria a ver varejadas pelas balas saídas das armas dos homens. A ilha, que afinal é península, construída pela natureza que usou areia branca em dezasseis quilómetros de praia ponteada pelos dongos negros e pelos homens negros, que quando os conheci tinham ambas as pernas e ambos os braços, corpo inteiro, pois então não existiam as minas antipessoais que viriam a matar e estropiar milhares? milhões? de homens, mulheres e crianças sem distinção de raças, sexos, credos ou idades que as minas, essas, tratam todos da mesma maneira. Lembro-me do morro do Bailundo, de onde se avistava aquela estrada que parecia ser, e talvez o fosse, a maior do mundo; lição prática das leis da perspectiva, parecia, sempre a direito, ir até ao infinito onde as rectas paralelas afinal se encontram. Lembro-me das noites atravessadas pela temível deslocação das bissondes, formigas guerreiras em formação compacta e sussurrante que só a gasolina em chamas no desespero dos humanos conseguia domar; dos belos e horríveis escaravelhos couraçados que a luz das montras nas cidades atraía, da víbora surucucu que os meus alunos mataram em grande grita no pátio da escola, das noites de queimada, em que as montanhas exibiam os seus colares de fogo e o ar se tornava pesado e denso, e das tempestades de relâmpagos em que vínhamos para as janelas ver o fim do mundo – ainda não era, mas parecia. Lembro-me das quedas do Lucala, da barra do Quanza, do vale das Ágatas, e até da welwitchia mirabilis que nunca cheguei a ver; da minha amiga Zé, que para mim era a menina do deserto (de Moçâmedes, onde começa a enorme secura da Namíbia) e para quem eu era a menina do mar (do grande mar Atlântico, que ainda é maior do que o deserto). Minhas amigas e meus amigos africanos, lembro-me bem...
Lembro-me do pôr do sol, que naquela terra se tinge de cores excessivas onde as estranhas ramagens das árvores se recortam: as mangueiras de fruto saborosíssimo que os meus olhos hoje remiram, inacessíveis nos tabuleiros dos hipers, os abacateiros de que agora guardo cuidadosamente o caroço aos raros frutos, os abacaxis tão doces que fariam corar o nosso melhor ananás, as papaieiras que nunca mais vi, os agridoces loengos vestidos de luto de que também me despedi de vez...Tudo bom, tudo de graça, tudo espontâneo; vendidas (por tuta e meia afinal) eram as laranjas e os morangos e as demais graças temperadas, que as tropicais para ali estavam para delícia de pássaros e homens, tantas vezes colhíveis na berma das estradas. Lembro-me das nuvens altas, acasteladas, do interior do continente, e de quase parafrasear Zeca Afonso: o céu daqui não é como o de lá, das anharas, dos rios, torrentes castanhas ferventes aqui, mares espraiados mais próximo das barras onde os perigosos crocodilos de água salobra provavelmente faziam e fazem, também eles, pela vida.
Tão grande a terra que seiscentos quilómetros de estrada quente e difícil se resumem a dois centímetros de mapa, perdidos na vastidão do que ficou por ver e percorrer, a terra onde havia terra para todos, e esteve em guerra mais de quarenta anos. Só gente com mais do que isso se lembrará, nela, do que é paz, e mesmo assim talvez se tratasse, então, de uma paz indigna, eriçada de vergonhas e de mágoas; mas por amor de quem se gerou a guerra? Um dia saberemos em que gabinetes forrados de caríssimas madeiras, em que sofás (e imagino-os de couro bem vermelho) o sofrimento indizível foi decidido por entre o fumo dos havanos e os interesses de alguns – mas esta geração pouco ganhará com isso. Talvez na próxima possa a dor das feridas existir só nas histórias dos mais velhos.
É verdade, Angola, hoje...curiosamente, sexta feira santa...verifico que ainda me lembro bem de ti. Perdoas-me nunca o ter dito?

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